etapa 9 - segunda-feira 15 de Janeiro de 2007 | Tichit - Néma
- Especial 494 km
- Ligação 3 km
- Total 497 km
Retratos
moto
Gérard Tilliette: «Pedi à Anne-Charlotte que encontrasse uma solução»
Era preciso acreditar. Com uma pequena dose de fantasia, de perseverança e sobretudo de bom senso, as ideias mais ousadas podem concretizar-se no Dakar. Em si, o desafio era ousado: Gérard Tilliette, motard todo-o-terreno, organizador de raids privados em Marrocos, trouxe consigo a sua filha Anne-Charlotte, uma jovem com 20 anos, para chegar a Dacar após uma longa corrida de 8000 quilómetros de estradas e pistas. À noite da primeira especial de Lisboa, nada indicava que a inspiração paterna tivesse sido tão rica: «Não sei quantas vezes ela caiu, mas foi uma catástrofe. Interroguei-me realmente. O que é que nós estamos a fazer aqui?», admite Gérard, que obteve resposta às suas cogitações na sequência dos acontecimentos.
Dissipadas as primeiras angústias, a nova participante no Dakar tem-se mostrado convincente. Na etapa de Ouarzazate a Tan Tan, uma improvável inversão dos papéis obrigou mesmo a Anne-Charlotte a tomar as rédeas do destino da aventura familiar: «Após uma série de tentativas de reparação mais ou menos frutuosas, acabei por compreender que tinha uma jante totalmente inutilizável a 30 Km da chegada. Foi então que pedi à Anne-Charlotte que continuasse sozinha à procura de uma solução para me trazer uma nova roda». Nova sim, mas destemida, a jovem motard comovida mostrou-se arrojada e sem medo: «Quando terminei a etapa, desmontei a minha roda e pedi a um soldado marroquino que a levasse ao meu pai. E depois tive que me desenrascar para que alguém me trouxesse uma nova roda de Zouerat. Com o tempo que levaram a encontrar-nos e a reparar os estragos, chegámos ao bivouac às três horas da manhã, exactamente hora e meia antes de repartir!»
Apesar de uma noite curta e movimentada, o duo não perdeu nada da sua energia e confiança. Pelo contrário. No fim de contas, os Tilliette já cumpriram metade do contrato, quando cerca de 70 motards já tinham abandonado o rali antes de chegar à Atar: «Era o nosso primeiro objectivo». Gérard descobre também a sua filha num outro ângulo com esta experiência do Dakar: «Ela é bastante diferente daquilo que eu vejo habitualmente. Por exemplo, é uma rapariga muito organizada e autónoma, gere muito bem tudo o que diz respeito à tenda, levanta-se cedo de manhã. Pelo contrário, em Saint-Omer, é uma miúda que vive na mais completa confusão!». Há quem diga que o Dakar é uma escola para a vida...
automóvel
Rafael Lesmes: «O Dakar continua a ser humano e cada vez mais profissional»

«Com o automóvel que temos não há lugar para tontices. É um Nissan Navarra CT2- 2 com pequenas alterações. Foi instalado um depósito de 200 litros e melhoraram-se as suspensões traseiras por causa do peso suplementar, mas é tudo». Rafael não quer correr à frente de todos. Com um orçamento mÃnimo de 150.000 euros, está a correr o seu segundo Dakar com uma filosofia de homem romântico. O que o motiva é a aventura, a Ãfrica, o imprevisto e não a competição. Mas isso não o impede de fazer os seus cálculos e sempre à sua maneira. «O investimento do Dakar é rentável. Talvez seja muito dinheiro mas, no fim de contas, não é caro. Não há melhor terapia: distracção, esquecimento e sonho».
Rafael Lesmes sente-se todo envolvido no Dakar. No seu refúgio das Canárias já vive para isso. Proprietário de uma sociedade de turismo, organiza digressões na sua ilha e vive ao ar livre. Rafael é um apaixonado por grandes espaços e pela liberdade. Conseguiu terminar 5 etapas no seu primeiro Dakar, em 2004, e hoje acha que o rali é ainda mais grandioso. O que o intriga é o equilÃbrio impossÃvel da prova. «É majestoso, mas sempre humano e cada vez mais profissional». O seu prazer no Dakar é a evasão e a condução. «Posso conduzir dez horas de seguida», afirma. Mas Rafael não é de modo algum um Mad Max: «Eu digo isto, mas quando a organização encurtou a etapa que chegava à Atar, devido à tempestade de areia, fiquei muito contente. Estava farto de conduzir!»
O n.º 477 já está satisfeito só em participar. É o seu credo. «O mais importante é fazer as coisas humana e modestamente». Com os seus longos cabelos grisalhos atados com um elástico, o seu olhar penetrante e longÃnquo ao mesmo tempo, Rafael é um defensor do Dakar dos modestos. «Há duas corridas», afirma. «À frente ou atrás dos camiões. Quando eles te ultrapassam, juro-te que é impressionante!». Para se relaxar tem sempre consigo um livro. Este ano é o último de Javier Reverte. É, evidentemente, um livro sobre viagens. «Comecei-o no avião e li um pouco em Portugal. Em Ãfrica não tive mais tempo.» A terapia do Dakar já está a surtir efeitos.
Carole Montillet e Mélanie Suchet: da neve para a areia!

Talvez não surpreenda muito que os navegadores sempre se deixaram atrair pelo Dakar, mas o que dizer dos esquiadores? Luc Alphand é o exemplo mais evidente (e o mais conseguido), Guerlain Chicherit é outro. E este ano, os dois pilotos foram alcançados por outro par de campeãs de esqui alpestre, Carole Montillet e Mélanie Suchet, ao volante de um Nissan T2.
Diz Carole: «A nossa verdadeira paixão é o quad. Praticámo-lo imenso onde moro, em Andorra, e já corremos o rali de Gazelle três vezes em quad. Mas quando falei do Dakar em quads, a Mélanie disse-me que eu era completamente louca. Mas depois de os ter visto em pista na semana passada, é provável que tenha razão! Apesar de não haver praticamente nenhuma comparação entre a neve e o deserto, há no entanto muitas semelhanças. Em ambos os casos, a pista nunca é a mesma: não pára de evoluir. Depois, há o contacto com a natureza e a velocidade».
Apesar de se divertirem imenso e de não estarem mal posicionadas na classificação geral, nem uma nem outra prevêem uma segunda carreira nos ralis raids. «Acabámos de pôr termo à nossa carreira de esqui de competição e optámos por um ano sabático para fazer diversas coisas e nos divertirmos», concede Carole. «Termos de nos organizar para o Dakar já representou um esforço enorme e, depois de vários anos de competição de alto nÃvel, seria bom relaxar um pouco e fazer as coisas mais calmamente uma vez na vida. Dito isto, se surgir uma proposta interessante»…
camião
Elisabetta Caracciolo: «Deixem o vosso lado feminino exprimir-se, conduzam um camião!»
O grande estereótipo do camionista é um tipo descontraÃdo com uma pequena barriga e uma bela amostra de tatuagens. Em contrapartida, o estereótipo perfeito da mulher italiana é a imagem inconfundÃvel da feminidade, Sofia Loren, por exemplo. Então, como explicar que haja três italianas inscritas na categoria camiões, duas co-pilotos e uma piloto com o nome afável de Luisa Trucco?
Elisabetta Caracciolo, co-piloto de um MAN ao lado de Massimo Capoferri e Luigi Algeri, participou inúmeras vezes no Dakar em diversas frentes: «Fiz a cobertura do Dakar muitas vezes como jornalista e até trabalhei no serviço de restauração, mas é a primeira vez que faço a corrida num camião. Adoro cada instante que passa. Pode-se pensar que a categoria camião é para latagões e que estes não apreciam muito as concorrentes. Isto está muito longe da verdade.. Toda a gente é adorável e não hesita em prestar ajuda. Penso que uma das razões é que só alguns camiões fazem realmente a corrida, o resto faz assistência rápida aos carros e motos. Isso significa que a categoria camiões atrai pessoas menos competitivas e mais dispostas a ajudar. Um pouco como as mulheres, aliás».
Mas se tudo isto lhe parece lindo demais para ser verdade, tranquilize-se. Segundo Elisabetta, não há nada que irrite mais o seu colega de equipa Massimo que ser ultrapassado por uma mulher na pista.