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etapa 8 - domingo 14 de Janeiro de 2007 | Atar - Tichit

  • Ligação  35 km
  • Especial 589 km
  • Ligação  2 km
  • Total  626 km

Retratos

moto

Frédéric Villy: «Para brincar na areia... contem sempre comigo»

FREDERIC VILLY

Fizeram da moto um desporto de equipa. O prazer da aventura solitária de que falam muitos concorrentes não tem lugar na equipa que formam Julio Ano e Frédéric Villy. Estes dois velhos amigos decidiram andar sempre juntos, vestirem-se da mesma maneira, comer às mesmas horas e executar em comum as tarefas mecânicas. A alquimia é delicada mas funciona correctamente, dado os dois noviços já terem chegado sem grandes dificuldades ao dia de repouso, ao passo que mais de sessenta motards já partiram para outras andanças, para não falar dos coleccionadores de incidentes: «Não temos nenhum problema importante e estamos a viver um prazer enorme. Em todas as passagens em dunas, regalámo-nos, quando dezenas de concorrentes se encontravam em apuros na areia. Convém dizer que temos motos pequenas e isso ajuda muito. E pessoalmente, desde que se trate de brincar com a moto na areia, podem contar sempre comigo. Talvez que isso faça parte da nossa personalidade», admira-se ainda Frédéric Villy no bivouac de Atar.

A nível técnico, não houve nada de especial desde que partiram de Lisboa. Questão de ambiente entre os dois comparsas, classificados em 134.º e 135.º lugares, também não houve qualquer distúrbio: «O problema é que a chegada é em 21 de Janeiro. Se eu me deixasse levar por Julio só chegaríamos a 22 de Janeiro», brinca o Frédéric, o mais excitado dos dois no manípulo do gás. «Felizmente que estou sempre à beira para o acalmar, senão teríamos poucas possibilidades de terminar a corrida», replica o Julio, como um sábio pausado. Ambos formam um par mais complementar do que oposto. Em todo o caso, são uníssonos a dizer que a vida é alegria e que vivem a mesma confiança que lhes permitirá vencer este desafio. «Estar aqui é esplêndido, mas eu já me vejo em Dacar», clama um. O outro tem um encontro a que não pode faltar na capital senegalesa: «Prometi à minha querida que se chegasse a Dacar casávamo-nos».

automóvel

Toni Manresa: « O Dakar é modéstia e sofrimento »

Copyright A.S.O. / Amaury Sport Organisation

Toni nasceu na ilha dos desportistas. Pode-se chamar assim uma ilha que até agora era conhecida como a ilha da ociosidade e da festa. Mas nas Ilhas Baleares o desporto tornou-se numa actividade nacional e são inúmeras as proezas dos seus filhos. Toni Manresa não se cansa de desenrolar a lista dos campeões locais: «Em ténis, há o Nadal e o Moya, em ciclismo Miguel Alzamora, em moto Jorge Lorenzo, que foi campeão do mundo de 250 cm3 em 2006, mais uma panóplia de títulos mundiais em karaté, taekwondo ou ginástica rítmica». Toni Manresa não é daqueles que gosta de bater no prego. Gabar-se não com ele. Com um busto de atleta e cabelos grisalhos, este desenhador de 47 anos fala comedidamente e é o primeiro a surpreender-se com o viveiro de grandes feitos que é a terra onde ele nasceu, para os quais ele contribui amplamente. Puro amador que é, como ele próprio se define, escreveu algumas das mais belas páginas da história do desporto, como por exemplo, a travessia do Atlântico à vela em 1992. Está agora a acrescentar mais uma com o Dakar. «Eu sou o primeiro da ilha a participar na prova. Comecei como co-piloto de Pep Vila em camião e, a partir do ano passado, conduzo o meu próprio automóvel». Isso dá-lhe uma enorme fama ainda reforçada pelo 48.º lugar obtido na sua primeira participação.

Este sucesso inspirou-lhe mesmo ambições realistas: «Ao analisar de perto a classificação apercebi-me que a diferença com os 30 primeiros era pouco importante. Era o meu objectivo para este ano. Mas quebrei a embraiagem no 15.º quilómetro da primeira etapa». Mas a má sorte não o desanimou. Está agora concentrado num objectivo mínimo: chegar a Dacar e ganhar o máximo de experiência para lançar, desde que regresse, um projecto de 3 anos de um novo automóvel. A fasquia será um pouco mais alta desta vez. «Terminar entre os 20 primeiros», diz ele sem pestanejar. Sempre como amador e sempre com uma pequena estrutura. O seu orçamento em 2006 era de 240 000 euros, em grande parte proveniente do apoio fornecido pelo governo das Ilhas Baleares, que está muito empenhado no desporto. Mas a aura crescente do Toni reserva-lhe também muitas surpresas: «O proprietário da pedreira Face Ramis procurou-me e propôs-me uma participação financeira no meu projecto. É um fanático de aventura e a minha filosofia agrada-lhe». Toni Manresa é um participante tranquilo: «O que importa é a modéstia e a capacidade de sofrer».

É esta a lição que ele divulga nas escolas e colégios das Ilhas Baleares quando as autoridades lho pedem. «Eu falo das tripas do Dakar. Falo também da importância do rali para os países de trânsito e do aspecto positivo que constituem as Actions Dakar da ASO. O verdadeiro Dakar é tudo isso e não as críticas».

moto

Paul Broome : “À seca no desertoâ€

PAUL BROOME

Paul Broome é inglês mas mora nos Estados Unidos, e mais precisamente em Nova Orleans: é um especialista de soldagem de formação. Esta parte do mundo sofreu dilúvios nestes últimos tempos e ele pensou que “uma mudança seria bem melhor do que o descansoâ€, sendo por isso que se inscreveu no Dakar. «Sou um corredor de maratona e portanto estou razoavelmente bem treinado. Claro que não levo muito a série esta corrida. Sou membro de um clube chamado Hash House Harriers, cuja divisa é “o clube dos sequiosos com aversão à caminhadaâ€. Tenho um autocolante na minha moto com os contornos de um pé e as palavras “On On†(vamos, vamos), que é o que nós dizemos uns aos outros quando nos treinamos.

Apesar do seu problema de “bebida†e da sua forma física, Paul não se sente muito bem nestes últimos dias e está cada vez mais desidratado. «Eu não sou gordo, mas minha moto, que eu construí durante o intervalo para o almoço, é grande. É uma Honda XR650 de base e não tem arranque eléctrico. Impõe um trabalho árduo nas dunas.»

Com as suas “baterias†quase descarregadas, Paul enfrentou sérias dificuldades na última etapa antes do dia de descanso, entre Zouerat e Atar. «Estava nas dunas quando cheguei à borda de um enorme buraco. Parei com a minha roda da frente em cima da borda e tentei durante uma hora de sair dali. Finalmente compreendi que seria impossível, coloquei o meu capacete no cimo para avisar os outros concorrentes que eu estava ali e mergulhei. O meu companheiro de equipa, Steve La Roza, passou por lá eu disse-lhe que a minha corrida tinha terminado e que estava à espera do carro-vassoura. Fiquei ali sentado cerca de uma hora a pensar na vida em geral e na minha namorada que vinha visitar-me em Atar. Pouco a pouco comecei a ganhar ânimo e decidi tentar puxar a moto durante 10 minutos e depois descansar 10 minutos. Três horas depois tinha saído do buraco e estava a caminho para me encontrar com a minha namorada».

moto

Gautier de Hauteclocque: «Pouco importa o meu atraso na classificação»

GAUTIER DE HAUTECLOCQUE

Gautier de Hauteclocque não tem o perfil típico dos motards inscritos no Dakar. Com uma estatura fina e alta, os seus óculos e ares de erudito, toda a gente o veria antes como professor de filosofia. Mesmo a sua opinião sobre o Dakar difere muito da dos outros concorrentes. O último modelo de pequena bomba hidráulica de arrefecimento e a dupla árvore de cames à cabeça não são assuntos que o seduzam. Ele prefere ainda a sua venerável e muito simples XR400 com arrefecimento a ar, que é aliás a mais velha moto do rali.

Gautier faz parte dos "malles moto" e orgulha-se de dispor de um dos mais pequenos orçamentos da prova: «25000 euros para a moto, as minhas inscrições, os hotéis na Europa, enfim tudo!». O lugar que ocupa na classificação não o impedem de dormir. O que lhe interessa, isso sim, é este gigantesco passeio nas pistas do deserto. Mas existe mesmo assim um ponto comum com todos os outros inscritos: o seu fervente desejo de chegar a Dacar. «Pouco importa o meu atraso na classificação, pouco importa se eu quase não consigo dormir ou o tempo que perco nas dunas, até posso aceitar todas as exigências dos organizadores, mas a única coisa que eu receio realmente é uma avaria ou um acidente, porque são os únicos elementos que poderão impedir-me de realizar o meu sonho».