A rota do dia
HÉLDER RODRIGUES TERMINA EM GLÓRIA
O quinto lugar, no seu segundo ano de participação e o triunfo na categoria das motos de 450 cc não pode deixar de ser considerado um resultado extraordinário. E se já tinha ficado debaixo de olho, após a exibição do ano passado, Hélder Rodrigues (Yamaha) não será apenas mais um jovem talentoso quando regressar à 30ª edição do Dakar, no próximo ano. Os pilotos mais experientes, doravante, terão de o considerar um deles e Hélder voltará a colocar a fasquia num plano mais elevado, tal como o fez até ao último quilómetro, neste Euromilhões Lisboa-Dakar 2007.
A tal ponto, que nem mesmo na (apenas) emblemática derradeira especial do Lago Rosa, o piloto de Sintra deu tréguas aos adversários, terminando num prestigioso terceiro lugar, atrás do agricultor letão, Vinters (KTM) e do norueguês Ullevalseter (KTM).
Hélder Rodrigues sai deste Dakar como lÃder incontestado da categoria 450 cc, superando o corso Michel Marchini (Yamaha), que se posicionou no sétimo lugar e o tricampeão do Enduro do Touquet, Thierry Bethys (Honda), o oitavo classificado.
Rodrigues, juntamento com Vinters e Ruben Faria foram, aliás, considerados os melhores “amadores†da prova, onde, para o registo, permanecerão como “os intrusos†que roubaram o triunfo aos “profissionais†em cinco especiais (Faria, uma, e Rodrigues e Vinters, duas cada).
“O meu objectivo era entrar no Top-5 e ganhar, pelo menos, uma etapa. Fiquei no quinto lugar da geral e ganhei duas etapas. Estou, portanto, muito satisfeito com o resultadoâ€, sublinhou Hélder Rodrigues garantindo : “ Trabalhámos muito para o conseguir. A equipa é óptima e a moto tambémâ€.
No entanto, Hélder assegura que os seus objectivos, em 2008, serão ainda mais ambiciosos: “Não pude privilegiar a preparação para o Dakar, devido à temporada de enduro. Porém, no próximo ano, vou alterar as prioridades e dedicar mais tempo à preparação da provaâ€.
Sem contar com Ruben Faria (Yamaha), que prepara já a sua próxima participação, depois de ter sido obrigado a abandonar com o motor partido na oitava etapa, Paulo Gonçalves (Honda) e Pedro Bianchi Prata (Yamaha) foram outros dos pilotos portugueses que levaram o seu empenho até ao fim. O primeiro fez o nono lugar na especial, compensando o tempo que andou “lá atrásâ€, antes de se voltar a juntar ao grupo da frente, surgindo, de novo, entre os 20/10 primeiros, confirmando que o seu lugar é, claramente, mais acima que o 23º lugar em que deixa a capital sanegalesa e o segundo, mostando que, sem o azar que o atirou para o fundo da tabela (terminou em 103º), poderia perfeitamente aspirar a uma classificação mais próxima do topo.
Por seu lado, Nuno Mateus (KTM), deixa esta edição da prova com a sensação que engoliu um cronómetro, antes da partida de Lisboa. Nuno fez o 28º tempo no Lago Rosa e termina a competição com o 32º lugar, depois de ter rodado quase sempre entre os 30 melhores, mesmo com uma lesão na mão, que se foi agravando e obrigado o piloto a dias (cada vez mais longos) de sofrimento.
Carlos Ala (KTM) foi o quarto dos cinco motards portugueses que conseguiram completar a prova. Assumindo a chegada a Dakar como objectivo, o piloto provou que a experiência tem uma palavra a dizer, quando o seu campeonato já não é o que se perfilha nos horizontes de Ruben Faria ou Hélder Rodrigues. As suas opções na escolha das pistas, prudência na avaliação e determinação na imposição do seu ritmo próprio levaram-no ao 74º lugar, depois de ter superado, com êxito, as armadilhas do deserto mauritano.
AS ARMADILHAS DO DESERTO
Com problemas desde o inÃcio, provavelmente devido a uma montagem defeituosa do GPS, que motivou sucessivas descargas de bateria da sua KTM, José Henrique Carvalho foi a primeira vÃtima dos milhares de factores adversos, que diminuÃram o contingente português nesta edição do Euromilhões Lisboa-Dakar 2007. O concorrente, que corria em memória do filho – que já não está entre nós – foi obrigado a desistir à quarta etapa (segunda marroquina), sem nunca ter conseguido dispor da fiabilidade necessária na sua máquina.
Essa mesma pista, onde Adélio Machado (Toyota Land Cruiser), que até aà se vinha batendo no topo da classificação do agrupamento T2, saltou a uma altura inesperada e o seu navegador, Jean-Louis Dronne, “aterrou†na posição errada, obrigando à sua retirada da prova no helicóptero médico e impedindo a equipa de continuar em acção. Ricardo Pina (KTM), teria sorte idêntica.
António Ventura (Yamaha), o primeiro a largar de Lisboa na edição de 2006, foi a quarta vÃtima, com o seu Quad praticamente desfeito na etapa seguinte, enquanto a entrada na Mauritânia se tornaria fatal para Rodrigo e Duarte Amaral (Bowler), António Sousa (Land Rover Defender) e Madalena Antas (Nissan Pathfinder)
Pedro Oliveira (Yamaha), com o moto muito danificada no meio do percurso, obrigando-o a esperar pelo camião-vassoura e Lino Carapeta/Ricardo Cortiçadas, com problemas de transmissão no Bowler seriam as vÃtimas seguintes, na sétima etapa, enquanto Ruben Faria, seria impedido de continuar, na oitava, com o motor da Yamaha partido.
Nuno Nazareth (Yamaha), que tinha já conseguido um resultado assinalável para um estreante em Quad, resistiu até á nona, mas um furo e problemas adicionais levaram a participação do piloto ao limite no percurso Tichit-Néma, levando-o ao abandono, tal como aconteceu com Bernardo Vilar e Pedro Gameiro (Nissan Patrol GR), que foram obrigados a passar duas noites junto ao carro para assegurar a sua recuperação.
Não é fácil, o Euromilhões Lisboa-Dakar.
A CONSAGRAÇÂO DOS RESISTENTES
A grande aventura chegou ao fim. Nas margens do célebre Lago Rosa, à s portas de Dakar, a ‘armada’ lusitana teve a justa consagração, pois terminar a grande ‘clássica’ é sempre proeza assinalável, para lá dos objectivos no capÃtulo de resultados.
Após uma ‘especial’ de curta extensão – apenas 16 km – que nada alterou em termos de classificação, tal como se esperava, a cerimónia de passagem pelo pódio arrastou-se até final da tarde.
Autor do 4º tempo na ‘especial’, ganha por Giniel de Villiers (VW), Carlos Sousa (VW) ficou com um gosto amargo deste ‘Lisboa-Dakar’, pois “nunca andei a este nÃvel†e não conseguiu melhor que a posição conquistada nos dois nos anteriores, isto é, o 7º lugar. “Três etapas acabaram por condicionar o resultado finalâ€, relembrou o piloto do VW Race Toaureg 2, que liderou a prova durante dois dias. De qualquer modo, “estou muito satisfeito com a nossa ‘performance’â€, sublinhou Sousa, salientando “o trabalho perfeito realizado pela ‘Phoenix Sport e o inexcedÃvel apoio da Volkswagen. Só posso estar-lhes gratoâ€, acrescentou o português melhor classificado nos automóveis.
Para Miguel Barbosa, que voltou a classificar-se no ‘top 10’ da etapa, assinando o 9º tempo, “terminar as duas participações no ‘Dakar’ é importante, pois a prova é muita duraâ€, sublinhou o piloto do ‘Proto Dessoude’, confessando que “a classificação geral ficou um pouco aquém das nossas expectativas, mas depois de tantos problemas mecânicos, só podemos estar satisfeitosâ€, referiu o piloto que terminou no 24º lugar da ‘geral’, de novo acompanhado por Miguel Ramalho.
O derradeiro dia foi de algum ‘stress’ para Francisco Inocêncio (Mitsubishi Pajero), que partiu uma transmissão quando já estava na praia, pronto para o arranque da ‘ultima ‘espcial’. “De imediato, o Paulo Fiúza começou a desmontar a transmissão, enquanto a Elisabete Jacinto trazia no camião o material necessário. Felizmente, o trabalho ficou pronto a tempo e horas e ainda conseguimos dar um mergulho antes de arrancarmos para a ‘especial’â€, referiu Francisco Inocêncio, o 3º melhor português nos automóveis (44º) e 67º na ‘especial’.
Boa nota para o estreante Nuno Ferreira, com Nascimento Costa no papel de navegador— 76º da geral – que levou o Bowler até Dakar, tendo assinado o 69º crono da derradeira ‘especial’.
A ‘solo’, pelo segundo ano consecutivo, Ricardo Leal dos Santos (Mitsubishi Pajero) debateu-se com muitos problemas ao longo da prova. “Nas etapas em tudo correu normalmente, terminei em 34º ou 35º, mas felizmente trouxe o carro direito até Dakar, sem ter dado qualquer toqueâ€, sublinhou o piloto de Coimbra, 32º na etapa final e autor de proeza não alcançada na última década na prova, pois completou o ‘Dakar’ por duas vezes consecutivas sem a ajuda do navegador. O 70º posto final revela, por isso, algumas das dificuldades sentidas.
A completar o bom desempenho da equipa ‘Red Line Off Road’, Nuno Inocêncio (76º), com Jaime Santos ao lado, conseguiu chegar na companhia do irmão Francisco a Dakar, tal como era objectivo assumido. “Apesar do azar da primeira etapa, ainda em Portugal, com os problemas de motor e na sequência dos quais fomos penalizados em 12 horas, e de outras contrariedades em Marrocos, conseguimos terminarâ€, sublinhou o piloto do Mitsubishi Pajero, que foi 69º na última etapa.
Os problemas sentido por Paulo Marques (80º), o mais veterano dos portugueses que alinharam na prova, pois foi a 14ª participação, não permitiram ao famalicense, tendo Rui Benedi como navegador – 34º na tirada — melhor resultado. “Chegar ao fim, significa que fizemos um bom trabalho e o prémio é toda a multidão que assiste à última ‘especial’, neste momento de descompressãoâ€, tal como referiu.
Pela 2ª vez, em igual número de participações, LuÃs Ferreira (100º), com Pedro Sereno no banco do lado direito, levou o Land Rover – 70º na tirada — até ao fim, desta vez, proeza com dedicatória. “Chegar a Dakar teve sabor diferente de há um ano pois agora não posso deixar de estar tristeâ€, recordando a memória de Hugo Filipe, o mecânico de 33 anos que faleceu, de forma súbita, após o primeiro dia de verificações técnicas e documentais.
Com “todos os objectivos cumpridosâ€, Mário Ferreira (Toyota), acompanhado por José Carlos Sousa, chegou a Dakar, na 106ª posição, “sem ter tido dificuldades de maior e com total entendimento da equipaâ€, tal como referiu. Na hora da chegada, após ter sido 89º na tirada, viu a actuação na prova ser premiada com a entrega do troféu para o melhor estreante na categoria T2.
Nos camiões, Elisabete Jacinto falhou por dois minutos o objectivo de terminar no ‘top 20’. Com o 19º crono na etapa de fecho, a piloto do MAN, que fez equipa com Ãlvaro Velhinho e Rui Porêlo, admitiu que “só por muito azar do meu adversário seria possÃvel chegar ao ‘top 20’ Ganhei um minuto ao Mercedes do Gimbre, mas não deu para maisâ€, referiu a 21ª classificada nos camiões e melhor no feminino deste ‘Lisboa-Dakar’ reconhecido pela generalidade dos concorrentes portugueses como muito duro, mas fácil de cumprir.