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etapa 10 - terça-feira 16 de Janeiro de 2007 | Néma - Néma

  • Ligação  10 km
  • Especial 366 km
  • Ligação  24 km
  • Total  400 km

Retratos

moto

Rob Deckers: «Voltarei, mas de camião»

ROB DECKERS

Rob acaba de chegar a Tichit. Galgou os 589 km da especial na solidão mauritana. Por trás desta vitória, uma lassidão quase do tamanho da infindável etapa com partida em Atar. «É duro demais», desabafou. De pé, ao lado da sua KTM 525, boné enterrado até às orelhas, parece perdido. São 10 horas da noite e Rob Deckers pede que lhe dêem uma ajuda. Os seus dedos pesados e inchados não conseguem desbloquear o Roadbook. A mecânica está bem, mas o moral vacila. O Neerlandês relata em poucas frases esta maldita etapa. «Fiz os últimos 120 km na areia. Já estava escuro. Rolava a 40 km/h. Foi demasiado longo, demasiado duro. Tenho 42 anos…».

Rob acende um cigarro e deixa vagabundear os olhos. O ruído dos motards que chegam ou que trabalham nas suas máquinas não o afecta. Este fervilhar da “malle moto†nesta noite de etapa maratona sem assistência parece-lhe longínquo. Rob aspira uma lufada de fumo e conta a sua história. «Comecei a frequentar o Dakar em 2005. Na sexta etapa caí nas dunas e um carro estatelou-se em cima das traseiras da minha moto. Fiquei com a caixa torácica ferida. Consegui acabar porque o bivouac distava apenas de 60 km. No dia seguinte tive que abandonar. Foram precisos três meses para recuperar».

Após essa primeira tentativa, ei-lo de regresso. Para acabar a prova e dizer adeus ao Dakar das motos. «É uma prova demasiado grande e arrisca-se demasiado para a minha idade. Vou terminar, por orgulho e para concluir o projecto, mas, a moto no Dakar acabou». Rob Deckers vai talvez ganhar a sua aposta pessoal, embora o Dakar a tenha vencido. Paradoxo de uma prova fora do normal. No entanto, ele não pode imaginar o seu futuro sem a Ãfrica e a aventura. Radicado na Bélgica, em Meerle, gerente de uma sociedade de importação-exportação de camiões, este “mordido†pelo desporto tenciona reinspirar-se no seu meio. «Vou voltar e correr o Dakar como piloto de camiões. É menos arriscado e mais natural para mim». São 22h30 na noite escura e estrelada de Tichit. O número 135 dirige-se em marcha lenta para o bivouac de restauração, pensativo e já noutros céus.

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Mirjam Pol: «Chegar a Dakar, sim… mas com a minha moto!»

Copyright A.S.O. / Amaury Sport Organisation

Na sua primeira participação em 2006, a Neerlandesa terminou segunda da categoria mulheres e 80ª na classificação geral. Este ano, Mirjam, 23 anos, poderia fazer ainda melhor. 44ª em Tichit, a jovem professora de desporto tem tido altos e baixos desde a partida de Lisboa. «Na Europa consegui manter-me no Top 100, mas à tarde da etapa maratona, em Foum Zguid, comecei a ter febre e o meu estado de saúde piorou no dia seguinte». Acrescente-se ainda uma dolorosa entorse no tornozelo durante a etapa de Zouerat: «Tive uma má recepção após um salto e torci o tornozelo direito. Pensei que a dor passasse, mas intensificou-se e não me deixou dormir».

Com o tornozelo bem ligado, a sólida neerlandesa prossegue o seu caminho rumo a Dacar, que é o seu objectivo. «Pouco me importo da classificação e das outras mulheres na corrida. Sei que Ludivine Puy e Annie Seel são muito melhores», declara, não sem dar uma olhadela à geral e ao seu atraso em relação à Francesa.
Na etapa em direcção a Atar, Mirjam teria merecido um prémio de fair-play, só por parado para dar gasolina à Annie Seel, o que prova que a Sueca não tem nada de adversária.

A ‘motard’ sabe que ainda está em fase de aprendizagem no Dakar, mas já incute respeito. «No ano passado, nos Países Baixos, as pessoas riam-se quando decidi participar. Depois ficaram surpreendidas ao me verem chegar ao dia de descanso. Este ano, é quase normal estar aqui. Tenho que continuar até Dacar sem correr riscos e tendo muito cuidado com a moto. O objectivo não é chegar a Dacar, mas é chegar lá com a minha moto…».

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Nuno Mateus: « Chegar a Dacar para fazer uma grande festa em Albufeira »

NUNO MATEUS

Para o Nuno, a vida é movimento contínuo. Em Tichit, lá está ele em volta da sua moto, azul-claro, patrocinada pela sua região do Algarve e pela sua cidade de Albufeira, em companhia de Pedro Bianchi Prata, outro motard português que já terminou a etapa e a preparação mecânica da sua moto e ajuda o Nuno a mudar de roda. A entreajuda não é uma palavra vã no Dakar e Nuno sabe-o melhor do que ninguém. De cabelos curtos e morenos, pequena estatura e silhueta desporttiva, Nuno sorri quando fala das suas desventuras no ano passado: «Sim, é verdade que abandonei para não deixar o meu compatriota, Ricardo Pina, sozinho nas dunas, mesmo se a minha moto andava muitíssimo bem. Durante o dia tínhamos ajudado Ruben Faria a continuar dando-lhe peças das nossas motos».

Este engenheiro civil de 34 anos está este ano do lado daqueles que precisam de ajuda. «É a minha vez», diz o piloto com uma piscadela. Nesta etapa de Atar a Tichit, as complicações começaram com um problema eléctrico entre dois controlos quilométricos da especial. « A minha moto tinha fusíveis defeituosos e um concorrente parou para me ajudar». Acaba de mudar de roda e para retirar a mala que lhe serviu de suporte durante a operação foi ajudado por um motard checo que instalou a sua tenda ao lado. A roleta da sorte gira para o Nuno. Já antes da partida, os patrocinadores da equipa do Algarve permitiram-lhe beneficiar de uma verdadeira assistência. E, todos sabem que a moto é para o Nuno um autêntico vírus. Campeão de Portugal de enduro em 1994 e vice-campeão em 1997, ficou em 6.º lugar este ano. «Quero chegar à Dacar e fazer uma grande festa em Albufeira». Eis um homem que não perde o sentido do colectivo. Nuno não tem cura, nunca mudará!

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A família Vulliet: os três irmãos do Dakar!

REGIS VULLIET

Há pais e filhos e mesmo pai e filha que fazem o Dakar, mas o recorde de participação em família pertence, em 2007, aos três irmãos Vulliet: Régis, François e Etienne.
François conta: « Fomos sempre loucos pelo Dakar e tínhamos o costume de o seguir juntos pela televisão. Não sou muito grande e pensava que seria impossível inscrever-me, mas há uns 15 anos vi Cyril Neveu subir para um barco em Marselha e dei-me conta que ele não era maior do que eu. A partir desse momento sonhava em participar um dia nesta corrida». François realizou o seu sonho há dois anos com o seu irmão mis velho Etienne, mas nenhum deles chegou a Dacar. Etienne partiu um pé e François torceu um tornozelo. Régis, esse não tinha podido acompanhá-los porque estava a construir a sua casa.

Em contrapartida, em 2007, decidiram voltar os três em Yamaha 450 quase idênticas, sendo a única excepção a moto de François, de cujo assento foi removida quase toda a esponja para ele poder ter os pés mais perto do chã. No dia de descanso, os três irmãos tinham um moral de ferro e pensavam poder ir até ao fim. Mas Régis partiu a caixa de velocidades na etapa Atar – Tichit. O François explicou que o seu irmão «estava muito cansado no resto do percurso e decidiu não mudar o motor. Em contrapartida, Etienne e eu estávamos em forma. O único problema que tivemos a caminho de Tichit foi uma fuga no depósito de gasolina da moto de Etienne. Foi assim que tivemos de encher a minha moto até “às goelas†e partilhá-la depois». Não será isto aquilo a que chama o amor fraterno?...