Dia de repouso - sábado 13 de Janeiro de 2007 | Atâr
Retratos
moto
Annie Seel: «de Princesinha a Ratinho do rali…»
Annie Seel é uma lutadora. Não veio ao Dakar só para chegar ao Lago Rosa, coisa que ela já fez dolorosamente na sua primeira participação em 2002, após ter fracturado a mão logo na 4ª etapa. Não, Annie está no Dakar para obter um resultado, ou seja, ser a primeira mulher a chegar a Dacar. É por isso, aliás, que a Sueca não está contente. É certo que estava satisfeita com a sua excelente 37ª posição da especial em Zouerat, mas Portugal e Marrocos não foram etapas muito sossegadas para ela. «O rali tem sido catastrófico para mim até aqui. Após a minha experiência de há 5 anos, onde tudo me aconteceu, queria voltar para fazer tudo bem feito. Mas, partimos de Lisboa e a 20 km começaram os problemas, desta vez com a bomba da gasolina. Isso fez-me perder muito tempo até Tan Tan. É frustrante!»
Após a primeira etapa da Mauritânia, Seel ocupava o 108.º lugar da classificação geral, a cerca de 3 horas de Ludivine Puy, primeira mulher da classificação. «Hoje já recuperei 40 minutos. Estou convencida que posso recuperar todo o atraso. O problema é que eu estou sozinha e ela é praticamente uma profissional. Daqui em diante a minha táctica será conseguir fazer sempre uma boa etapa».
Falando de problemas, para além da avaria da bomba de gasolina, a pequena Sueca de 52 kg já não é tão bela nem sorri tanto como nas verificações de Lisboa. «No inÃcio era a Princesinha do Dakar, hoje sou o Ratinho». Coberta de pó, como todos os motards, Annie tem também o lábio superior inchado após um choque contra os instrumentos de navegação em plena corrida. Já os abaixou 10 cm.
Agora as dunas esperam esta jovem de 38 anos: «Não tenho receio. De qualquer modo, não podemos lutar contra as dunas, porque elas ganham sempre». Annie Seel continua a sorrir e sabe que apesar de sentir dores nas costas, no lábio e nas pequenas arranhadelas das mãos, ela será novamente «a Princesinha do Dakar!».
automóvel
Nick Tollefsen: «Deixei de ter medo!»
Nick Tollefsen é o mais jovem concorrente do Dakar de 2007. Este estatuto enche-o de orgulho, a pontos de perguntar se é o mais jovem de toda a história do rali. Ficou um pouco decepcionado quando lhe disseram que Alan Preto, antes dele, tinha terminado o Dakar com 19 anos em quad. O Norueguês continua sorridente ao relatar as peregrinações ao volante do seu Bowler.
Esta primeira metade do Dakar parece já ter feito dele um antigo combatente: «Deixei de recear as dunas, o deserto e as feridas». Com o seu co-piloto inglês, Alex Cole, Nick já passou uma noite perdido no deserto. «Perdemos 21 horas entre Er Rachidia e Ouarzazate, enterrados na areia. Quase chorei. Chegamos exactamente no limite do prazo. A partir daÃ, todas as etapas têm corrido bem». O estudante de Ciências Económicas conseguiu mesmo a façanha de terminar em 34.º na etapa em Atar, o que lhe permite subir para o 83.º lugar da classificação geral. «O nosso objectivo não mudou: queremos chegar a Dacar, mas também fazer uma boa corrida. Ficar atrás dos outros não nos interessa».
O ambicioso benjamim da prova confessa, mesmo assim, estar surpreendido com as dificuldades do Dakar: «Nunca esperei que fosse uma corrida tão difÃcil. Não é a dimensão das etapas que nos incomoda, é sobretudo o aspecto psicológico. A gente nunca sabe o que nos espera».
Enquanto espera retomar o caminho em direcção do Lago Rosa, Nick Tollefsen ouve com atenção os conselhos conhecedores de seu pai, Ivar Erik, também ele participante na corrida e com a sua experiência de três participações no Dakar, entre as quais um 16.º lugar em 2006. «Nós somos exactamente os mesmos, admite o filho. Ajudámo-nos, mas não há concorrência entre nós. Isso poderia ser perigoso... ».
Depois destas sete etapas, para ele o objectivo é chegar ao dia de repouso, mas continua lúcido... «Tenho que me acalmar para evitar grandes decepções...».
automóvel
Jean-Marc Monbeig : «60 quilómetros em segunda!»
Jean-Marc e Mchel, nascidos no sudoeste da França, já correm juntos há 15 anos. Em matéria de desporto, já fizerem praticamente tudo na França. Foi por isso que decidiram no ano passado correr o rali que lhes faltava ainda no palmarés: o Dakar.
Tinha-lhes corrido tudo bem até à etapa Tan Tan - Nador de 2006, na qual deram um banho ao seu buggy num poço! «Um poço de cerca de 5 metros de profundidade e nós lá fomos afundar-nos. O carro desapareceu completamente. Acreditem que foi uma sensação estranha».
Este ano, a dupla também não tem tido muita sorte. Ainda não tiveram nenhum dia sem problemas. «Na parte montanhosa de Marrocos, por exemplo, perdemos a direcção assistida e isso não nos facilitou nada a condução do veÃculo!». Imagina-se facilmente a inquietação de Jean-Marc e de Michel ao começarem a especial entre Tan Tan e Nador. «Devido aos problemas que tivemos, partimos na 139.ª posição ontem de manhã, mas andámos muito bem e conseguimos ultrapassar 25 automóveis. Depois começámos a perder a caixa de velocidades. Era impossÃvel passar da 6ª para 5ª, depois não podÃamos passar da 3ª para a 4ª e, finalmente, a 200 km da chegada, a caixa de velocidade bloqueou em segunda e decidimos então não tocar mais na alavanca de mudança de velocidades. Acreditem que levou-nos muito tempo a chegar ao bivouac na noite passada. Quem sabe? Já que viemos até aqui, talvez possamos continuar sem mais complicações até ao Lago Rosa».
moto
Team Campa Motors: « A terceira participação é ainda mais difÃcil!»
Para os novos do Dakar, a aprendizagem é tão árdua que alguns, quer consigam ou não, regressam somente para pôr em prática “o que aprenderam†na primeira tentativa. Os três amigos Franck Libbrecht, Pascal Vincent e Patrick Arnoult são um caso à parte: «Na primeira vez viemos com Hondas XR400s e o Pat foi o único que terminou a corrida. Foi em 2000, e decidimos então voltar para ums nova tentativa».
Em 2005, voltaram e terminaram o rali sem incidentes. «Aparentemente comportámo-nos bem, mas também convém dizer que não tivemos nenhuma dificuldade insolúvel». Seria de esperar que a terceira tentativa fosse ainda mais simples. Aparentemente não é o caso.
«Ontem, o Pascal foi repatriado com clavÃcula fracturada e hoje eu tive muitas dificuldades. No CP1 dei-me conta que tinha pedido a tampa do filtro de ar, mas arranjei-me para fazer uma nova com o cartão de caixa de garrafas de água e uma fita adesiva. Em seguida, no CP2 verifiquei com horror que a minha jante da frente tinha uma fenda de ¼ de circunferência. Tentei fixá-la com uma braçadeira, mas ficava constantemente entalada no guarda-lamas e começou rapidamente a rasgar. Quase me dava por vencido quando o Pat me animou a continuar. Finalmente chegámos ao bivouac. Se isso tivesse acontecido numa pista pedregosa em vez de areia, penso que não o terÃamos conseguido. O meu veÃculo de assistência nem sequer queria acreditar. Pedi-lhes para não atirarem a roda fora porque quero levá-la comigo para a França e pendurá-la como troféu na minha sala de estar».